APRESENTAÇÃO

APRESENTAÇÃO

…alguns negros demonstrar aos pensamento, a espírito… (Fanon)1querem, brancos potência custe o que custara riqueza do seurespeitável do seuTata Tancredo. O Papa Negro no Terreiro do EstácioO enredo do G.R.E.S. Estácio de Sá para o Carnaval de 2026 apresenta uma narrativapermeado de oralidade, sobre Tancredo da Silva Pinto (Tata Tancredo), e traz o mote comescritas sobre sua passagem neste plano terrestre, bem como uma linha imaginária de suachegada ao orum2, liderança frente a umbanda omolocô3 e atuação no carnaval carioca que serãoadaptados artisticamente e carnavalizados. Nascido em Cantagalo, território Fluminense doEstado do Rio de Janeiro antiga Guanabara, Tancredo trazia em seu DNA, à cultura religiosa, acultura do samba e a cultura do Carnaval, pois seu avô materno, pai e tia tinham envolvimentosculturais com a religiosidade, jongo, samba e Carnaval. Seu nascimento se deu no início dosanos novecentistas, portanto vivenciou na infância e vida adulta a cultura elitista das teoriascientíficas do branqueamento4 e do misticismo, ou seja, um projeto de estado de apagamento dasculturas negra e indígena, fortalecendo assim a cultura europeia.Ainda jovem Tancredo foi iniciado como filho de Oxóssi, por Tia Benedita e Tio Bacayodé,ambos de linhagem banto5, seu envolvimento ao chegar a terras cariocas se intensifica com osamba através dos grandes mestres do Morro de São Carlos, amizades que o levou a fazer parteda constituição da primeira Escola de Samba do Brasil, a Deixa Falar atual Estácio de Sá6 e seintegrar em terreiro de umbanda na comunidade. Ele marcou sua trajetória cultural com o sambae religiosidade sendo membro da Liga da União das Escolas de Samba, confederação eassociações umbandistas7 e ordem dos músicos. Foi um dos compositores da canção General daBanda, cantada por Blecaute, sucesso do carnaval dos anos 50, cuja letra inicialmente seria um1Pele Negra, Máscaras Brancas. Livro por Frantz Fanon. Ed. 2020.2É uma palavra iorubá que significa “céu” ou “mundo espiritual”. É um conceito presente na mitologia iorubá e em religiõesafrodescendentes, como o Candomblé e a Umbanda.3Omolocô (Omolokô): É uma religião sincrética que mistura elementos do Candomblé, da Umbanda, do espiritismo e de tradiçõesameríndias e africanas.4 Propunha como solução para o problema misturar a população negra com a branca, incluindo os imigrantes europeus, geração porgeração, até mudar o perfil “racial” do país, de negro tez da pele branca.5São originários de uma vasta região da África, que abrange países como Angola, Congo, Gabão, Cabinda e Moçambique6História-da-deixa-falar – IPHAN7Congregação Espírita Umbandista do Brasil (CEUB) e Terreiro de Umbanda de Vovó Maria Conga. situados na Rua SampaioFerraz, 29 no bairro do Estácio Criada por Tata Tancredo em 1968.https:/www.instagram.com/ceubcongrega?igsh=eWFjc3Vmbm82Y3p41Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026ponto para Ogum, além de compor Jogo Proibido considerado o primeiro samba de brequegravado por Moreira da Silva, e, muitos pontos de saudações aos orixás.O enredo busca estabelecer as relações de Tatá Tancredo com o samba e especialmentecom religiosidade ao identificar sua relação ainda menino com sua crença. Como também suaconfirmação aos 20 anos de idade conferida pelo babalorixá Ganga Zumbi (Carlinhos Guerra)que lhe outorga o deká e cargos como: Tatá de Inkiquice8 e Thai (Oluwa de Ifá), o querepresenta o sumo sacerdote de Orumilá Ifá9. Sua iniciativa ao edificar entidades sociaisumbandistas, começa através de uma mensagem que recebe de Xangô no terreiro na cidade deDuque de Caxias, de sua tia Olga da Mata e seu tio Paulino da Mata. Na incorporação Xangôaconselha que ele deveria se dedicar a formação de entidades e ações que erguesse a umbandacomo sendo uma prática de ancestralidade negra, assim como tinha participado na formação daLiga da União das Escolas de Samba.E assim, ele se empenha na mensagem de Xangô, e nessa luta pelo reconhecimento daumbanda com raízes africanas10fica conhecido como o “Papa da Umbanda omolocô”11. Assim,o Papa da Umbanda12 agrega em suas iniciativas outros segmentos umbandistas vislumbrando oamparo de uma umbanda detentora de raízes africanas. Logo, sua diligência em sistematizar areligião o faz criar ferramentas para dar voz e vez ao povo do santo, em defesa de umaumbanda africanizada. E dessa forma o uso de escrituras de livros, colunas de jornais e criaçãode eventos no Rio de Janeiro e em outros estados, faz parte da construção de uma umbandasincretizada. Os exemplos das escritas são: o jornal O Dia, Gazeta de Notícias e 30 livros como:Mirongas de Umbanda, Eró da Umbanda, Cabala Umbandista entre outros. Nas festas asrepresentatividades foram: homenagem a Iemanjá nas praias do RJ, que era em fevereiro edepois passou para 31 de dezembro, Preto Velho em Inhoaìba, Rio de Janeiro, que acontece atéa atualidade na Praça Adolfo Lemos, Festa de Ialoxá da Pampulha, Cruzandê, em Betim, MinasGerais, e a festa de Xangô em Pernambuco.8Correspondência entre inquices e orixás Inkossi tem o orixá correspondente a Ogum, Mutalambô corresponde ao orixá Oxóssi,Kayatumbá à Iemanjá, Zumba-rundá à Nanã, Lembaranguange a Oxalá.9Ifá é o oráculo e orumilá é o orixá que o usa.10Lopes (2011b: p. 497) apud Bahia e Nogueira, salienta que “[…] o omolocô fora um antigo culto provavelmente banto, deorigem angolana, no âmbito da cultura dita ‘lunda-quioco’. […] Lunda-Quiôco é uma região de Angola que abrange a província deLunda Sul e parte da etnia Tchokwe, também conhecida como Quiocos. É uma etnia banta.11O culto Omolocô (Omolokô) também foi influenciado por diversas vertentes religiosas, principalmente o culto aos Orixás e aosNkisis12O “Papa Negro da Umbanda”, como era conhecido, foi um dos principais divulgadores e defensores das tradições africanas noBrasil. Conhecido também como rei do Omolokô, veio de uma família de praticantes dos encantos de fé e folia (Rufino. p. 154.2024).2Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026Tatá Tancredo no Rio de Janeiro buscou se aproximar de figuras relevantes paradesempenhar celebrações religiosas e, por conseguinte, difundir sua visão cultural sobreumbanda ao promover encontros com discussões sobre a religiosidade. Nesse contexto, oestádio do Maracanã foi palco de um grande encontro entre umbandistas e demais personagens.E sua participação religiosa em pleno vão central da Ponte Rio-Niterói com a presença depolíticos e outras entidades religiosas, na unificação dos estados Rio de Janeiro e da Guanabara,evento denominado “Rosas no Mar Unificam a Umbanda” nos mostra sua influência comoreligioso de matriz africana na cidade do Rio de Janeiro. E dessa forma o Papa da Umbanda fazuso de estratégias de astúcia se posicionando frente aos grupos sociais, espaços públicos entreoutros para afirmar a negritude e hibridização da cultura religiosa negra africana com a culturaumbandista. Dando ênfase a umbanda omolocô, como sendo uma ramificação dessa religião,que em suas normas litúrgicas apresenta elementos e práticas utilizadas no continente africano.Com tais táticas de penetração no universo político e social da cidade, o Papa da Umbandatinha o desígnio de decidir questões teológicas relacionadas a um plano de institucionalizar areligião de matriz africana. A todo o momento o líder umbandista buscava, junto com outroslíderes da ocasião, exibir seus entrosamentos acerca da religião, de forma a apresentar umenfrentamento pacifico nos espaços públicos e frente aos negacionistas da fé e práticasafro-carioca e umbandistas. Sua luta deixa o legado que são os terreiros de umbanda e suasdiversas denominações na cidade do Rio de Janeiro, e mesmo com sua morte em 1979, quandodeixa esse plano, a umbanda omolocô e outras ramificações cariocas se mantém firme eresistente, após décadas de luta e obstinação serena do Papa da Umbanda. E sua passagem parao orum por conta de sua dedicação, certamente foi um grande xirê13 entre orixás, caboclos, opovo das almas, erês e exus em uma celebração a sua chegada no plano espiritual.Dessa forma, a Primeira Escola de Samba do Brasil, também fundada por ele, reafirma amensagem de Tancredo da Silva Pinto sobre a diversidade religiosa, a afirmação identitária e aresistência negra, celebrando essas dimensões com o amor, a intelectualidade e a alegria quesempre marcaram a trajetória do homenageado.13 Xirê é um ritual de dança e canto que invoca os Orixás na Umbanda e no Candomblé. A palavra xirê vem do iorubá e significa”roda” ou “dança”.3Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026SINOPSETata Tancredo. O Papa Negro no Terreiro do EstácioEle veio de tão longe para saravá o uendá (Bis) Benditolouvado seja, ele é o rei do Panaiá14! (Bis) Bate o bumbolá na aldeia Auê êá!. Salve Oxóssi! Salve Tatá Tancredo!Meu banzo pra você está/O ifá que decide/Orunmilá oremi….Todo lugar Nigéria/Outro lugar Benin. (Orunmilá:Maracutaja).Chegou o general da banda, he he/Chegou o general dabanda, he a/ General,general/Mourão mourão/Varamadura que não cai/Mourão muorão/Catuca por baixoque ele vai.(Compositor: Tatá Tancredo).Festejo ao Guardião das Raízes Afro-brasileirasTancredo da Silva Pinto optou por defender a cultura religiosa afro-brasileira e seus legadospor meio das celebrações e festejos, pois essas manifestações representavam uma das maismarcantes lembranças de sua infância, vividas em um ambiente familiar envolto pelamusicalidade, pelos batuques sagrados e pelas festividades carnavalescas entre outras. Dessamaneira, participou de criações de importantes celebrações religiosas e carnavalescas,reafirmando a identidade cultural e religiosa, além de promover momentos de comunhão,solidariedade e festejos. Mais do que um pai de santo foi compositor de sambas, pontos deumbanda e escritor, Tata Tancredo foi um defensor da liberdade de um culto sincrético, foi umguerreiro incansável da cultura afro-brasileira, deixando um legado que ainda ressoa nosterreiros, nas rodas de samba e nos cortejos carnavalescos. Seu nome e sua história permanecemvivos na força dos tambores e no esplendor das cores que irão atravessar a Avenida Marquês deSapucaí.O Berço da Tradição e EspiritualidadeA história de Tata Tancredo se inicia nas terras de Cantagalo, região de grande tradiçãocafeeira e marcada pela presença de ex-escravizados. Filho de Belmiro da Silva e EdwirgensMiranda Pinto, Tancredo descende de uma linhagem que valorizava a cultura, resistência e14 Panaiá: A palavra é usada para muitas coisas na vida e serve para lembrar que se deve ter orgulho da própria trajetória.4Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026religiosidade, pois seu avô materno, Manoel Miranda, era fundador de blocos carnavalescoscomo o “Bloco Avança” e o “Treme Terra”. Sua tia Olga da Mata, conhecida como RainhaGinga, destacava-se no “Cordão Místico”, também constituído pelo avô de Tancredo, queapresentava uma mistura de samba de caboclo com ritual africano, demonstrando a fortepresença das tradições afro-brasileiras no carnaval da época, traços marcantes em suaconstituição familiar. Desde jovem, Tancredo teve seu primeiro contato com o carnaval15,fascinado pelos cortejos dos blocos e cordões que desfilavam em sua cidade. Essa vivência quese deu em um momento que o projeto de estado era exorcizar a cultura negra e indígena, marcouprofundamente sua trajetória de militância pacífica, o que não abalou suas defesas frente àsculturas religiosas e do samba na cidade carioca.Aos 13 anos ele tinha forte atração pelos toques para os Exus, nessa idade foi iniciadoespiritualmente, por Tia Benedita e Tio Bacayodé, sendo consagrado ao dono do seu ori,Oxóssi. Sua migração para o Rio de Janeiro trouxe consigo não apenas sua fé, mas também suamissão de preservar a herança africana na religião.Na cidade de Duque de Caxias, sua tia Olga da Mata fundou um terreiro chamado SãoManuel da Luz, fortalecendo os laços entre família, religião e cultura afro-brasileira e umadefesa ao sincretismo religioso sendo constituído através dos aprendizados exercidos naumbanda africanizada.Raízes no Samba CariocaNo Rio de Janeiro, Tancredo se estabeleceu no Morro do Salgueiro e mais tarde no Morro doSão Carlos, berço do samba que teve relações estreitas com Baiaco, Brancura, Heitor dosPrazeres e Ismael Silva. Tancredo também teve participação fundamental na fundação daprimeira Escola de Samba do Brasil, a Deixa Falar, no bairro do Estácio, ao lado de grandesmestres do samba, bem como frequentador de terreiro de umbanda da comunidade e mais tardeajudaria a fundar a Liga da União das Escolas de Samba. Ao fazer parte do momento históricoque marcou a transição dos blocos carnavalescos para o modelo das escolas de samba, que foi abase do carnaval moderno, ele se fez presente com intensidade. E assim, o Papa da Umbandareafirma sua luta na preservação das raízes africanas e penetra na trajetória do mundo dosamba. Como profissional trabalhou como estafeta, entregador de telegramas nos correios, e ao15Íntimo dos blocos e cordões de carnaval, se destacou como compositor do sucesso “General da banda”, gravado pelo cantorBlecaute. Rufino (p.154. 2024).5Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026mesmo tempo fortalecia sua arte e espiritualidade. Suas músicas gravadas pelos cantoresBlecaute e Moreira da Silva ganharam espaço nos anos 1930. General da Banda em homenagema Ogum lhe rendeu subsídios financeiros para atender ao pedido de Xangô em criar umainstituição em defesa dos umbandistas, e Jogo Proibido considerado o primeiro samba debreque. Ao conviver com icônicos do Morro de São Carlos consolida um elo entre o samba e aumbanda16 na cidade carioca.Tancredo foi responsável ao liderar o movimento de reafricanização da umbanda,confrontando a vertente “branqueada” da religião que inicialmente fortificava elementoseuropeus na religião. Ele defendia que a umbanda trazia em sua constituição elementosafricanos, portanto, não era apenas uma umbanda com elementos indígenas e europeus comomuitos protegiam e identificavam na época. Suas obras literárias e sua coluna semanal no jornalO Dia espalharam seus conhecimentos por mais de 25 anos, o que foi uma estratégia depenetração social e defesa pacífica, através da mídia e da literatura em amparo a uma umbandatambém africanizada.O Papa da Umbanda Omolocô e Seu Legado: A Consagração da Fé Afro-brasileiraAs águas sempre estiveram presentes na trajetória de Tata Tancredo, no simbolismoespiritual, uma vez que sua fé em Iemanjá como rainha do mar marca sua presença em doisgrandes eventos em que ele participa e promove (Réveillon e Ponte Rio Niterói). A Festa deIemanjá, criada por ele, tornou-se um marco de devoção, inspirando a tradição do Réveillon deCopacabana17, espaço em que por muitos anos os terreiros se encontravam nos primórdios dafestividade. Sua visão de promover a união entre religião, música de preto, pontos de saudaçõese celebração popular, fez do evento um espaço de contemplação à espiritualidade. Todavia, naatualidade esse mesmo evento, atrai multidões para saudar o novo ano com espetáculos de fogosde artifícios, shows e músicas eletrônicas, não mais com a lógica espiritual fomentada pelo Papada Umbanda. Ao promover o movimento da festividade Cruzambê, um espaço sagrado para osreligiosos, que é celebrada em Betim, Minas Gerais, o Papa da Umbanda, intensifica e reforçacom seus pares que o Cruzeiro das Almas (cruzambê), um símbolo em que se cultua as almas ese dá comida, e que tem como finalidade caracterizar uma vinculação com os orixás eespíritos ancestrais. E assim ele fomenta sua visão religiosa nesta região.16A umbanda tem raízes nos povos Banto, mas também incorpora elementos de outras crenças.17A cidade do Rio de Janeiro deve ter a responsabilidade de assumir que festejar a passagem do ano na praia foi iniciativacomunitária dos povos de terreiro. Rufino (p.154. 2024).6Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026A luta de Tata Tancredo pela valorização e respeito às religiões de matriz africana sematerializou em grandes eventos que deram visibilidade à umbanda e suas raízes africanas. AFesta da Fusão, realizada na Ponte Rio-Niterói (o ritual “Rosas no Mar Unificam a Umbanda”),e o evento “Você Sabe o Que é Umbanda?”, no Estádio do Maracanã, demonstram seu papelcomo líder espiritual e defensor da identidade afro-brasileira. Além disso, criou e organizoudiversas festas religiosas pelo Brasil, entre elas: Festa de Ialoxá na Pampulha, Belo Horizonte(MG), Festa de Preto Velho em Inhoaíba (RJ) e Festa de Xangô em Pernambuco.Tancredo em suas atitudes frente a defesa de uma umbanda africanizada traziaconhecimentos, promovia festividades e encontros de forma polida sem agredir a compreensãode outros seguidores da umbanda. Ele simplesmente solicitava através de suas convicções umaconcepção sobre a existência dos traços da cultura africana nos diversos segmentos da umbanda,o que para ele era legítimo e legível a presença de certas práticas ritualísticas e elementoslitúrgicos utilizados nas religiões de raízes africanas nos terreiros de umbanda.Xirê para Tata Tancredo No Terreiro do Estácio – O Mensageiro de Orunmilá Ifá“A religião é o laço entre Deus e os homens. Todas as idéiasreligiosas têm, pois, um fundamento comum, que é a existênciado Ser Supremo, a manifestação de sua vontade através dasforças naturais, o destino do homem após sua morte. (…) Aproporção que caminhamos na senda do conhecimento, mais emais se nos afigura demonstrar a unidade fundamental dosentimento religioso que independe das condições de raça ecultura” (Freitas e Tata Tancredo)18.Em sua chegada ao plano espiritual, na encruzilhada entre o Òrun e Àiyé, os tamboresecoam, chamando todos os guardiões da ancestralidade. O grande terreiro celeste se ilumina, eExus, de gargalhada solta e passos firmes, abrem os caminhos para o batuque. Com seus cocarescoloridos, os Caboclos chegam à dança guerreira, trazendo folhas sagradas e ervas de cura. OsPretos-Velhos, com seus cachimbos perfumados e olhares serenos, unem-se ao redor, contandohistórias de resistência e fé em uma roda falangeira.Eis que os Erês surgem em giros alegres, espalhando risos e flores pelo espaço sagrado.Os Orixás, majestosos, ocupam o terreiro sagrado de pé para consagrar, e à frente deles,18 Freitas e Tata Tancredo: Impressionantes Cerimônias da Umbanda. p. 20. 1955).7Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026Orunmilá Ifá ergue sua mão para abençoar o escolhido. Tata Tancredo se aproxima comhumildade, vestindo um manto tecido com fios da memória ancestral. Em suas mãos carregatodo seu conhecimento terrestre, através das palavras leva o axé do tambor, com seu canto,além da força espiritual que liga o ontem, o hoje e o amanhã.És o mensageiro da sabedoria de Ifá que agora é celebrado por nós! Anuncia Xangô,batendo seu oxé contra as pedras flamejantes e diz também. “Que tua voz jamais se cale mesmonesse plano!” “Tu defenderás, ainda que espírito, as raízes e a memória do povo preto!”Completa Nanã, ao dizer:” com sua água serena, limparás os caminhos da ignorância daquelesque na Terra habitam e que habitarão!”Iemanjá lança sobre ele, em seu ori, as águas do oceano, Oxum o amor e o brilho dasriquezas, e Ogum ergue sua espada, garantindo proteção nesse novo plano. Oxalá, com suasvestes brancas reluzentes, derrama sobre Tata Tancredo suas águas purificadoras,concedendo-lhe clareza, paciência e sabedoria em sua nova morada.O xirê que reverencia sua missão que não era travada com armas, mas com palavras,cantos e conhecimento, uma luta guiada pelo respeito às tradições, pelo resgate da memóriaancestral e pela resistência cultural. Cabe salientar que ele enfrentou as injustiças não com aforça bruta, mas com o axé de sua fé, levando adiante a luz da ancestralidade africana para quenunca se apague. Por fim, Oxossi, dono do seu Ori, ergue seu ofá e proclama: “É caçador daverdade, guardião da memória e guia daqueles que buscam as raízes de seu povo!”E então, coroado com o brilho da história e o peso da missão, Tata Tancredo dança entreos ancestrais, sua alma pulsando com os tambores eternos. No grande terreiro do Orun, a festanão tem fim, pois a luta pela ancestralidade é um canto que nunca se cala e nunca se apaga.AUTOR: Carnavalesco – Marcus PauloAUTORA: Enredista – Cristina Silva8Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026Referências:BYRON Tôrres De Freitas e TANCREDO Da Silva Pinto. Impressionantes Cerimônias da UmbandaEDITORASOUZ:Rio de Janeiro.1955CABRAL, Sérgio. As Escolas de samba do Rio de Janeiro. RJ: Lumiar,1996.CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas: Estratégias Para Entrar e Sair da Modernidade. SP Edusp, 2013.COSTA, Haroldo. 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Record, 2004.CUNHA, Maria Clementina Pereira. “Não tá sopa”. Samba e sambistas no Rio de Janeiro, de 1890 a 1930. SãoPaulo: Editora Unicamp, 2015.BAHIA, Joana. O Rio de Iemanjá: uma cidade e seus rituais. Revista Brasileira de História dasReligiões.Maringa Universidade Estadual de Maringá,2017.BAHIA,Nogueira, Farlen. Tem Angola na umbanda? Os usos da África pela Umbanda Omolocô.RevistaTransversos. Dossiê: Histórias e Culturas AfroBrasileiras e Indígenas – 10 anos da Lei 11.645/08. Rio deJaneiro,UERJ,2018.FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. SP: EBU, 2020.FERNANDES, FLorestan.A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1978.KILOMBA, Grada. Mmemórias da Plantação. Episódios de racismo cotidiano. Cobogo, Rio de Janeiro, 2019.LOPES, Nei. Dicionário da Antiguidade Africana. RJ: Civilização Brasileira. 2021.LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. SP: Selo Negro. 2021MARTINS, Leda Maria. Performances do Tempo Espiralar. Editora Cobogó. 2011.NOGUEIRA, Farlen de Jesus. “O papa da umbanda omolocô”: Tancredo da Silva Pinto, clivagens e disputas nocampo religioso umbandista do Rio de Janeiro (1950 – 1979). São Gonçalo: UERJ,2020.ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro. Umbanda e sociedade brasileira. São Paulo: Brasiliense,1991.RIOS, Ana Maria; MATTOS, Hebe Maria. O pós-abolição como problema histórico: balanços e perspectivas. RJ:Topoi, 2004.ROCHA, José Geraldo, SILVA, Cristina da Conceição. Traços da religiosidade africana no Carnaval carioca. BH:Horizonte, 2013.RUFINO, Luiz. CAZUÁ. Onde O Encanto Faz Morada. Paz e Terra: Rio de Janeiro 2024.SILVA, Sormani da. Escola de Samba Deixa Malhar, batuques e outras sociabilidades no tempo de Mano Elóina chácara do Vintém entre 1934-1947.Rio de Janeiro: Centro Federal de Educação Tecnológica, 2014.SILVA, Cristina da Conceição, Patricia Luisa Noguueira Rangel, e José Geraldo Rocha. 2014. Do BatuqueDo Samba Ao Batuque Do Funk: Culturas Negras Da Periferia Carioca. RJ: Autografia 20179Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927G.R.E.S. ESTÁCIO DE SÁ – CARNAVAL 2026SILVA, Mary Anne Vieira Da. Xirê – A Festa Do Candomblé E A Formação Dos “Entre-Lugares’. Goiânia, v. 8,n. 1/2, p. 99-117, jan./dez. 2010.SODRÉ, Muniz. Terreiro e Sociedade: A Magia do Mundo Afro-brasileiro.Rio de Janeiro: Imago Editora.2022.PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados : Orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras,2005.Referências eletrônicas:AMORIM, Diego Uchoa. “É Procurado Por Gente Que Vem Da África” Tancredo Da Silva Pinto, OPós-Abolição E A Umbanda Omolokô”. IN: ISAIA, Artur Cesar, GOMES, Adriana e TRAMONTE, Cristiana deAzevedo (orgs.). História e religiosidade I: Religiões Mediúnicas e Afro-brasileiras. Cachoeirinha: Editora Fi, 2024.Disponível em: E_PROCURADO_POR_GENTE_QUE_VEM_DA_AFRICA .Acesso em 20/03/25AMORIM, Diego Uchoa. O Papa Negro da Umbanda e General da Banda no Samba: Tancredo da Silva Pinto(Tata Ti Inkice) no Brasil do Pós-Abolição. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, N. 21, 2021, P.17-38 (DOSSIÊ BIOGRAFIAS E TRAJETÓRIAS NEGRAS DO SAMBA CARIOCA). 2021. Disponivel em:O_PAPA_NEGRO_DA_UMBANDA_TANCREDO_DA_SILVA.Acesso em 04/04/25.AMORIM, Diego Uchoa.Filho Da Diáspora Africana Nascido no Vale do Paraíba Fluminense: Deslocamentos,Trajetória e Tancredo da Silva Pinto. Anais da XVII Semana de História Política – XIV Seminário Nacional deHistória: Política, Cultura e Sociedade – Povos Originários e Ancestralidade: florestanias e alianças afetivas. 2023.Disponível em: Um_Filho_Da_Diaspora_AfricanaKAIN, Márcio. Tatá Tancredo e a herança africana da umbanda. UMBANDBOA-Disponível em :https://www.youtube.com/watch?v=MnbNPcG6bBk acesso em15/02/25.B-Rulles. Tata Tancredo – Um Guardião Das Raízes Afro-Brasileiras. Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=_HB-1Fd2ugI. Acesso em:15/02/2025FILHO, Babá Mário FARLEN, Nogueira, SIMAS, Luiz Antônio. Tatá Tancredo e o campo umbandista.Disponível em: https://www.youtube.com/live/FsO4nQcUGz8 .Acesso em:15/02/2025.SAMBARIO. Sambas da década de 60 (até 1967). 2004. https://www.sambariocarnaval.com/index.php?sambando=sambas60 acesso em 10/06/24Disponível emTHEODORO HELENA et al. Dossiê das Matrizes do samba do Rio de janeiro. R.J: IPHAN, 200610Primeira Escola de Samba do Brasil – Fundada em 12 de agosto de 1927

Wesley  Assessor de imprensa  GRES Estácio de Sá

Credito Foto

Proibida a reprodução das imagens sem autorização expressa do autor, conforme Lei 9.610