G.R.E.S. IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE – CARNIVAL 2026
SYNOPSIS OF THE THEME “CHAMELEONIC”

*G.R.E.S IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE- CARNAVAL 2026*
*SINOPSE DO ENREDO “CAMALEÔNICO”*
Junto ao punhado de paetês e confetes que manuseio para soprar no carnaval que virá, enxergo aquilo que pode ser visto primeiro: algo que é homem e bicho. Um híbrido no limiar entre a fera selvagem e a face humana. Bicho-homem. Espécie de homem-pássaro que roubou um par de asas para seu voo sonoro. Criatura que, no pouso terreno, mascarou-se junto ao verde da mata e ao colorido dos hibiscos deixando-se fotografar entre penas e pedras, lantejoulas e plumas, troncos e raízes. Um animal em estado de transformação que te convida ao êxtase feroz. Algo que se revela nu. Vestido apenas com a sua pele. Mil peles. Pele de camaleão. Camaleônico.
Em cena, ele requebra diante dos caretas e quem o vê não sabe se é homem ou mulher. Colo coberto de pelo e boca tingida de carmim. Ventre masculino e olhos contornados com lápis negro. Timbre feminino que nasce na boca masculina. O cantar da vedete visto em um corpo másculo. Escondido por detrás da máscara de tinta, ele é o instinto febril que não se pode dominar. Registro rebelde e surreal. O corpo que requebra em zigue zague. O sumo perfumado de uma América Sul-Americana pendendo em colares. Um xamã tupiniquim ornado de miçangas, penas de papagaio e delírios quiméricos.
Ele é o que guarda na voz. O grito que silencia quem impõe o silêncio. Aquilo que ainda pode ser ouvido quando as bocas estão amordaçadas. O vinil em giro na radiola. O doce e o amargo que se encontra no SECOS E MOLHADOS. A voz e a cabeça oferecida de bandeja como alimento poderoso junto ao que se come com a boca, os olhos e os ouvidos.
Inclassificável, ele é aquilo que se rasga para ser outro. O homem primitivo que desce à terra na gota d’água que transborda de um CÉU-PÁSSARO. O homem de Neanderthal coberto de crina e chifre que dá vez a um BANDIDO enfeitado com brinco de argola. O salteador de corações em desvario, gatuno das paixões e dos romances aventureiros. O bandido que é sucedido pelos que cobiçam a boneca, mordem a maçã, provam do veneno e flertam com o PECADO. Este último, por sua vez, derrama-se no FEITIÇO. O feitiço de um corpo nu, bandoleiro e cigano, que é visto em cavalgada em um cavalo alado. A voz dos que não tem voz. Corporificação de sujeitos não apreciados. Divindade que incorporou a subversão. O grito dos loucos. A porção mulher dos malandros. O anjo safado. A iconografia dos marginais. A performance máscula dos afeminados. O canto dos desgarrados e sem paradeiro. A chave dos trancados nas gaiolas.
A voz que sarra a canção. O clamor das mulheres de Atenas. Aquilo que embala a balada que os loucos dançam e a jura de preferir não ser normal. Canção que é ferida aberta. Eco de uma bomba sem cor e sem perfume. O sangue que pinta com tinta escarlate o gemido de culturas latinas dizimadas. O chamado misterioso de um pavão que exibe a cauda aberta em leque. Voz lunar que desvenda a face oculta de um lobisomem que é visto entre fadas, corujas e pirilampos.
Ao virar sua face para a festa, ele nos banha com canções solares. Aquelas, de amores ensolarados que cantam para que o dia possa nascer feliz. As que animam os que andam nu. Convite para uma farra do lado de baixo da linha do Equador. Uma folia no matagal. Sem juízo e pecado. Farta e suada. Lambuzada. Com a tristeza pra lá e a todo vapor. Deleite para os vira-latas de raça. Pra quem quer botar o bloco na rua. De uma gente que não corre quando o bicho pega e, quando fica, sabe que o bicho come. Prazer e delírio em um jardim de delícias terrenas. Jardim tropical de acrobacias amorosas e travessuras desenfreadas. Retrato 3×4 do prazer erguido em purpurina. O doce da maçã e o veneno da serpente. O riso de quem não se faz de santo. Destino para aqueles que querem brincar, gingar e botar pra ferver (gemer).
*Pesquisa, desenvolvimento e texto: Leandro Vieira*
1. O texto introduz a corporificação de ideais de liberdade a partir da perspectiva hibrida adotada pelo homenageado na construção de seu personagem público. O parágrafo flerta com declarações do artista que, incontáveis vezes, assumiu não querer ser limitado por definições. Sua intenção particular inaugural era ser visto como um bicho localizado no limiar entre o estado animal fantástico e a porção humana de forma ambígua e ambivalente.
2. O recorte textual remete ao surgimento da figura de Ney Matogrosso no imaginário brasileiro tendo sua independência comportamental como mote para a apresentação de uma persona performática que incorporou a androginia e a estética sul-americana com toques surreais como material criativo. Há ainda a menção à sua estreia como vocalista do Secos & Molhados, tendo como foco o icônico LP (e a histórica capa) lançado em 1973. Em linhas gerais, um marco de suas performances históricas e vitrine para a sua consagração como um dos maiores artistas brasileiros.
3. Historicamente, as figurações incorporadas pelo artista em seus quatro primeiros discos e shows (pós SECOS & MOLHADOS) são a base que edificam a imagem de Ney Matogrosso como um artista transgressor e libertário de forma definitiva. No texto, em sequência, são mencionados os LPs ÁGUA DO CÉU-PÁSSARO (1975); BANDIDO (1976); PECADO (1977) e FEITIÇO (1978). Como dito, trabalhos de carreira que apontam escolhas estéticas e musicais que flertam com a provocação moral e a teatralização da libido sexual aproximando a figura pública de Ney à personificação de sujeitos não apreciados, localizados à margem dos padrões sociais vigentes em meio a um ambiente de forte repressão.
4. O parágrafo lança luz em sucessos musicais de uma das mais importantes personalidades da MPB. Dono de uma obra tão sofisticada quanto seleta, Ney é considerado um pescador de pérolas quando o assunto é seu repertório particular. Sem preocupação cronológica, a menção a clássicos do artista é realizada como uma espécie de pot-pourri sonoro e visual onde suas canções guiam a produção das imagens sugeridas pelo texto. Em sequência, sucessos inquestionáveis como MULHERES DE ATENAS (Chico Buarque e Augusto Boal); BALADA DO LOUCO (Arnaldo Baptista e Rita Lee); ROSA DE HIROSHIMA (Poema de Vinícius de Moraes musicado por Gerson Conrad); SANGUE LATINO (João Ricardo e Paulinho Mendonça); PAVÃO MYSTERIOZO (Ednardo) e O VIRA (João Ricardo e Luli).
5. Por fim, é sugerida uma festa imagética permissiva e ensolarada que faz do espírito transgressor e livre do artista homenageado o mote para o desfecho narrativo. Trata-se de um convite ao desfrute das delícias e dos prazeres capitaneados pelo discurso estético e performático de Ney Matogrosso ao longo de toda a sua carreira em ambiente carnavalesco, afirmativo, libertário e provocador. No trecho, como ilustração alegórica, o texto cita livremente canções afinadas com o perfil descrito anteriormente. São elas: PRO DIA NASCER FELIZ (Frejat e Cazuza); NÃO EXISTE PECADO AO SUL DO EQUADOR (Chico Buarque e Ruy Guerra); FOLIA NO MATAGAL (Eduardo Dussek e Luiz Carlos Góes); VIRA LATA DE RAÇA (Rita Lee e Beto Lee); HOMEM COM H (Antônio Barros e Cecéu) e EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA (Sergio Sampaio).
*BIBLIOGRAFIA*
“Vira-Lata de raça” – Ney Matogrosso e Ramon Nunes Mello – Tordesilhas. Ano 2018 / “Ney Matogrosso: Abiografia” – Julio Maria – Companhia das Letras. Ano 2021 / “Da resistência à repressão. Anos 70/80” – Zuenir Ventura – Aeroplano. Ano 2000 / “Mal necessário – a androgenia animal de Ney Matogrosso” – Pamêla Keiti Baena – Revista brasileira de estudo homocultura. Ano 2023 / “Ney Matogrosso… Para além do bustiê: Performances da contraviolência na obra BANDIDO (1976/1977)” – Robson Pereira da Silva – A PPRIS. Ano 2000 / “O personagem marginal em Ney Matogrosso… Para além do bustiê” – Jessica Ferreira Alves – UFMS. Ano 2022 / “Sangue latino no palco: Nuances de decolonialidade na arte de Ney Matogrosso” – Roberto Remígeo Florêncio e Pedro Rodolpho Jungers Abib – Portal de periódicos de UEMS. Ano 2019
*CONSULTA MUSICAL*
LP “Secos & Molhados” – 1973 – Gravadora Continental/ LP “Secos & Molhados ll” – 1974 – Gravadora Continental / LP “Água do céu-pássaro” – 1975 -Gravadora Continental / LP “Bandido” – 1976 – Gravadora Continental / LP “Pecado” – 1977 – Gravadora Continental / LP “Feitiço” – 1978 – Gravadora WEA / LP “Sujeito estranho” 1980 – Gravadora WEA / LP “Ney Matogrosso” – 1981 – Gravadora Ariola / LP “Pois é” – 1983 – Gravadora Ariola / LP “Pescador de pérola” – 1987 – Gravadora: CBS / CD “Estava escrito” – 1994 – Gravadora Polygram / CD “Olhos de farol” – 1999 – Gravadora Polygram / CD “Inclassificáveis” – 2008 – Gravadora EMI / CD “Bloco na rua” – 2019 – Gravadora Som Livre
Igo Peres Assessor de imprensa Imperatriz Leopoldinense
Credito Foto *Créditos: Leonardo Queiroz/Divulgação Imperatriz*
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G.R.E.S. IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE – CARNIVAL 2026
SYNOPSIS OF THE THEME “CHAMELEONIC”
Amid the handful of sequins and confetti I handle to blow into the carnival yet to come, I see what is meant to be seen first: something that is both man and beast. A hybrid on the threshold between wild creature and human face. Man-beast. A kind of bird-man who stole a pair of wings for his melodic flight. A creature that, once grounded, masked itself within the green of the forest and the vivid hues of hibiscus, letting itself be photographed among feathers and stones, sequins and plumes, trunks and roots. An animal in a state of transformation that invites you to a fierce ecstasy. Something that reveals itself naked. Clothed only in its skin. A thousand skins. Chameleon skin. Chameleonic.
On stage, he sways his hips before the masked crowds, and those who watch cannot tell whether he is man or woman. A chest covered in hair and lips painted crimson. A masculine torso with eyes lined in black. A feminine tone emerging from a masculine mouth. The vedette’s song echoing from a virile body. Hidden behind a painted mask, he is the feverish instinct that cannot be tamed. A rebellious, surreal figure. A zigzagging body. The perfumed essence of South America hanging in necklaces. A tupiniquim shaman adorned in beads, parrot feathers, and chimeric delusions.
He is what he holds in his voice. The scream that silences those who enforce silence. That which can still be heard when mouths are gagged. The vinyl spinning on the record player. The sweet and the bitter entwined in Secos & Molhados. A voice and a head offered on a platter, as powerful nourishment along with what is consumed by mouth, eyes, and ears.
Unclassifiable, he is what tears itself apart to become something else. The primitive man descending to earth in the drop of water overflowing from a Sky-Bird. The Neanderthal man covered in mane and horn giving way to a Bandit adorned with a hoop earring. A thief of frenzied hearts, a rogue of passion and adventurous romances. The bandit succeeded by those who covet the doll, bite the apple, taste the poison, and flirt with Sin. And Sin, in turn, spills into Spell. The spell of a naked, gypsy outlaw body seen riding a winged horse. The voice of the voiceless. Embodiment of uncelebrated beings. A divinity infused with subversion. The scream of the mad. The feminine side of rogues. The naughty angel. The iconography of the marginalized. The masculine performance of the effeminate. The song of the wanderers with no place to go. The key to the ones locked in cages.
The voice that grinds against the melody. The outcry of the Women of Athens. That which sways the dance of the mad and the vow to never be normal. A song that is an open wound. The echo of a bomb without color or perfume. The blood that paints the moan of decimated Latin cultures with scarlet ink. The mysterious call of a peacock flaunting its fanlike tail. A lunar voice unveiling the hidden face of a werewolf seen among fairies, owls, and fireflies.
As he turns his face to the party, he showers us in sunlit songs. Those bright with love, sung to make the day dawn happily. Songs that cheer those who walk naked. An invitation to a revelry below the equator line. A jungle fest. Shameless and sinless. Lush and sweaty. Sticky. With sorrow pushed aside and the rhythm turned all the way up. Delight for the purebred mutts. For those who want to take their bloco to the streets. For people who don’t run when things get wild, and if they stay, they know how to embrace the wild. Pleasure and ecstasy in a garden of earthly delights. A tropical garden of amorous acrobatics and unrestrained mischief. A passport photo of pleasure painted in glitter. The sweetness of the apple and the poison of the serpent. The laughter of one who doesn’t pretend to be a saint. A destination for those who want to play, swing, and let it all sizzle (moan).
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