União de Maricá unveils plot synopsis for Carnival 2026

União de Maricá apresenta sinopse do enredo para o Carnaval 2026
Texto do carnavalesco Leandro Vieira apresenta a explicação narrativa sobre os balangandãs
A União de Maricá divulgou, na noite desta segunda-feira (16), a sinopse do enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, que será apresentado na Série Ouro do Carnaval 2026. Assinada pelo carnavalesco Leandro Vieira, a sinopse servirá de base para o desenvolvimento da narrativa da escola no próximo desfile.
Sinopse
BERENGUENDÉNS & BALANGANDÃS
Estamos na velha Bahia, a Roma Negra como tão bem definiu a ialorixá Eugenia Anna dos Santos ao tentar dar conta da centralidade da cultura negra para a formação da identidade daquele território. Voltando no tempo e olhando para o passado, estamos na beira do cais de uma antiga Salvador e, de lá até a mais alta ladeira que nos leva às portas dos sobrados da cidade alta, o que se vê é o Brasil colonial e o vai e vem de corpos retintos apregoando aves, bolos, mingaus e peixes frescos.
Em meio à cena, o que chama a atenção é a quantidade de mulheres pretas empunhando tabuleiros que exibem bolos e frutas tropicais. Quitutes de toda sorte, ofertados a granel, que perfumam o ambiente. Perfume ora doce, ora salgado. Para comer com a boca e com os olhos.
Nesse recorte público, quem olhar com mais atenção o sobe e desce das ladeiras, enxergará o luzir de joias feitas em ouro e prata enfeitando os corpos que desfilam. Símbolo de poder e status, os artigos são brincos para as sinhás e anéis para os dedos dos senhores. Um camafeu ao gosto português no colo de uma senhora de pele alva. Uma cruz bordada com incrustações de rubis no peito do Bispo e, também (e por que não?) uma penca sonora junto ao ventre de uma preta que equilibra seu tabuleiro em meio ao som continuado que empresta uma sonora trilha para a sua caminhada: Barangandãns…Belenguendén…Berenguendén… Balangandãs…
Ornando seu corpo retinto em meio aos martírios da escravidão, o brilho das joias trazia a lembrança de um território livre, aonde reis e rainhas eram cobertos por luxo e riqueza. De deuses engalanados e mulheres livres numa África – de ouro e de prata – que nem de longe podia ser imaginada no degredo da imposição do trabalho forçado nos trópicos.
À luz do sol que ilumina uma Bahia escravocrata, a presença de metais preciosos reluzindo como ornato para um corpo negro de mulher evocava, em quem os ostentava, a memória dos metais que deram fortuna à soberana haussá Amina de Zaria. Uma joia, em uma mulher preta da Bahia de tempos idos, trazia a presença de Nzinga, a Rainha de Matamba e as histórias de que, após ser vitoriosa em uma guerra, teria sido vista coberta por fios de latão, ligas maciças e fartura de colares dourados.
Ali, balançando feito chocalho junto ao corpo, estava também saberes africanos sobre a fundição dos metais. Na peça, que funcionava como adorno, está o trabalho das mãos de um negro malê que deu a um cilindro os desenhos feitos no cinzel e o espaço oco em que as pretas guardavam seus pós de mandingas ou, quem sabe, fragmentos do alcorão tidos como relicário.
Eternamente gravadas nas peças ornamentais que embelezavam o baixo-ventre de mulheres negras, estão as digitais dos negros da Guiné, vindos do Império Axânti, seus saberes sobre a extração dos metais, sobre a faiscação do ouro, as filigranas desenhadas em fios tão preciosos quanto precisos e o culto a Ogum.
Sobre isso, é curioso pensar que, no som do balanço das teteias pendentes que deram nome à peça ornamental produzida em território brasileiro, também está o toque ritmado do adarrum que saúda Ogum, divindade trazida pelos cativos vindos para cá na travessia das calungas. No ouro ou na prata dos balangandãs está a memória ancestral da forja do senhor do ferro e a emulação fragmentada de seu assentamento de fetiches pendentes. Ele – o balangandã – é parte da armadura da divindade que guarda com as suas armas o corpo alheio. Sua espada, sua lança e a sua faca transmutada em joalheria.
Um chocalho de badulaques. Berloques encantados para as pretas que os ostentavam no balanço das caminhadas. Balançando pra lá e pra cá, via-se requebrando junto aos quadris que se mexiam, uma chave propiciatória na intenção de abrir caminhos. A evocação para a incorporação da força de um gato-maracajá em um dente felino encastoado de prata. Um adorno barroco e tropical onde o pouso de dois papagaios está eternamente aprisionado em uma amálgama metálica rígida presa à cintura por uma corrente de argolas.
Amuleto para pender uma figa de jacarandá, azeviche ou coral. Evocação de ancestralidade com sabor de fruta fresca. O culto aos orixás transmutado nas curvas de cajus com castanhas de ouro oco (Kaô Kabecilê, valei-me meu pai Xangô!); em gordas romãs bordadas em prata (Epahey, senhora das nuvens de chumbo!); ou em belos abacaxis enfeitados com espinhentas coroas metálicas (Atotô Bábá, a sua benção Omulu!)
Era visto rebolando nas cinturas das pretas engalanadas nas festas da Conceição da Praia. Presente na memória dos encontros na Igreja da Barroquinha. Chocalhando na Baixa do Sapateiro junto aos festejos de Santa Barbara ou em meio à brancura das rendas e dos camisus das pretas que se apressavam rumo à colina do Bonfim. Artigo misturado junto aos brincos de pitanga e aos colares agigantados, brilhando em penca, na beca e nos panos-da-costa das mais antigas irmãs da Irmandade da Boa Morte.
Joias fartas luzindo diante dos olhos de uma sociedade racista. Artigo subversivo que documenta o êxito de mulheres rebeldes que se deixaram chamar de “sinhás pretas” tamanha a riqueza acumulada. Matronas ancestrais que se tornaram símbolos de ascensão social e liberdade. Donas de seus caminhos quando os caminhos ostentavam portas fechadas. Mulheres que fizeram de suas joias um cofre que se carregava junto do corpo. Poupança e pecúlio para planos maiores e operações financeiras que lhes garantiram o maior dos investimentos: a compra da própria liberdade.
Nesse artigo de rara beleza, exemplar de uma joalheria retinta, está a história de mulheres que deixaram como herança para seus descendentes a experiência de terem sido alforriadas por assinaturas advindas de mãos negras. Um baú de ouro traduzido em joias inventariadas que nos lembram uma luta vertida em enfeites que embelezam. Um legado ancestral que revela a identidade e as ânsias de mulheres pretas que, apesar da crueldade imposta pelo sistema vigente, encontraram brechas e conquistas que resultaram em bens, luxo e poder.
Seus nomes, vamos descobrindo por terem sido gravados por elas em ouro e prata. Nas pratas que fundem as grossas alianças que se entrelaçam para formarem os colares deixados em testamento por Marcelina da Silva – uma negra natural da Costa da África – para sua filha, de nome Magdalena. Nas memórias imaginadas de um Recôncavo romântico onde viveu “Mariquinha dente de Ouro” – aquela que se cobria “com roupas de linho bordadas de barafunda” ou na farta penca de berloques presentes no balangandã de Florinda Anna do Nascimento, a rainha de Ébano brejeiramente chamada Fulô, que sorri coberta de joias em registro fotográfico que funciona não apenas como prova material de suas conquistas individuais – e das investidas de inúmeras pretas detentoras de posses no luxuoso mundo das joias – mas, também, da história que agora proponho contar como enredo.
Enredo, pesquisa, desenvolvimento e texto: Leandro Vieira.
G.R.E.S. UNIÃO DE MARICÁ
Assessoria de imprensa
Emerson Pereira
Credito Fotos Divulgação
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União de Maricá unveils plot synopsis for Carnival 2026
Carnavalesco Leandro Vieira presents the narrative explanation behind the “balangandãs”
On the evening of Monday (June 16), União de Maricá released the synopsis for its 2026 Carnival parade theme, “Berenguendéns e Balangandãs”, which will be presented in the Série Ouro. Written by renowned carnavalesco Leandro Vieira, the synopsis lays the foundation for the school’s narrative in its upcoming parade.
SYNOPSIS
BERENGUENDÉNS & BALANGANDÃS
We find ourselves in old Bahia—“Black Rome,” as the revered ialorixá Eugênia Anna dos Santos aptly named it—recognizing the central role of Black culture in shaping the identity of that land. Looking back in time, we arrive at the docks of colonial Salvador. From there to the top of the hills where the city’s grand mansions stand, what we see is colonial Brazil: the coming and going of dark-skinned bodies selling birds, cakes, porridge, and fresh fish.
Amid this scene, what draws the eye is the number of Black women carrying trays stacked with cakes and tropical fruits—treats of every kind, sold in abundance, perfuming the air. A scent both sweet and savory. A feast for the mouth and the eyes.
Anyone watching the ebb and flow of the hills will notice the gleam of gold and silver jewelry adorning the bodies moving through the streets. Symbols of power and status: earrings for the ladies of the house, rings for the masters’ fingers. A Portuguese-style cameo resting on the chest of a pale-skinned matron. A cross encrusted with rubies on the bishop’s chest—and also (why not?) a jangling bunch of charms hanging from the waist of a Black woman balancing her tray, whose rhythmic walk creates a soundtrack of its own: Barangandãns… Belenguendén… Berenguendén… Balangandãs…
Adorning her dark body in the midst of slavery’s suffering, the jewelry’s brilliance evoked the memory of a free land—where kings and queens were draped in riches, where gods were splendidly adorned, and women lived free. An Africa of gold and silver, unimaginable amid the forced labor of the tropics.
Under the sun of a slave-holding Bahia, the precious metals glistening on a Black woman’s body recalled the legacy of Queen Amina of Zaria, the powerful Hausa monarch whose victories brought her golden adornments. In Bahia, the ornaments recalled Queen Nzinga of Matamba, who, after battle, was seen wearing brass chains, massive alloys, and abundant golden necklaces.
Dangling like a rattle at her side were also African metallurgical knowledges. In the ornament, used as adornment, lived the work of a malê craftsman—an African Muslim—who engraved patterns into metal and shaped a hollow space inside, where women kept mandinga powders or perhaps fragments of the Qur’an as relics.
Forever etched into the jewelry that adorned the waists of Black women are the fingerprints of Guinean Africans from the Ashanti Empire: their expertise in metal extraction, gold panning, and intricate filigree design—alongside their devotion to Ogun. It’s fitting to think that in the clinking rhythm of those charms, we hear echoes of the adarrum, the sacred drum that honors Ogun, the orixá brought by enslaved Africans across the calungas (oceans).
In the gold or silver of the balangandãs lives the ancestral memory of the forge of the god of iron—his fragmented shrine mirrored in the charm clusters. The balangandã becomes part of Ogun’s armor, guarding other bodies with his weapons—his sword, his spear, his blade, transmuted into jewelry. A rattle of trinkets. Enchanted baubles worn by women as they walked.
Swinging back and forth with their hips, a talismanic key could be seen—intended to open paths. Or the magical presence of a maracajá wildcat’s tooth, encased in silver. A tropical baroque ornament, where two parrots are forever frozen in a metallic embrace at the waist, held by a chain of rings. An amulet for a fig charm carved from jacaranda, jet, or coral. Ancestral evocation with the flavor of fresh fruit.
The orixá cults were transmuted into the curves of cashew fruits with hollow golden nuts (Kaô Kabecilê, bless me Father Xangô!); into plump pomegranates embroidered in silver (Epahey, Lady of the thunderclouds!); or beautiful pineapples with thorny metallic crowns (Atotô Babá, bless me, Omolu!). These jewels swayed on the waists of women decked out for the Feast of Nossa Senhora da Conceição da Praia.
They were seen in the Barroquinha church, jingling in Baixa do Sapateiro during the festivities of Santa Bárbara, or moving quickly up the hill to Bonfim in white lace and camisus. Mixed among cherry-shaped earrings and oversized necklaces, the balangandãs sparkled in the attire and fabrics of the elder sisters of the Irmandade da Boa Morte. Lavish jewels glittering in the face of a racist society.
A subversive article that documented the success of rebellious women who dared to be called “Black ladies” (sinhás pretas), such was their accumulated wealth. Ancestral matriarchs who became symbols of social ascent and freedom. Women who owned their own paths when all roads were closed. They made their jewelry into portable safes—savings and capital for greater dreams and financial actions that led to their greatest investment: the purchase of their own freedom.
In this rare and beautiful article, a shining example of Black jewelry craftsmanship, lies the story of women who left as inheritance to their descendants the experience of being freed through the signatures of their own Black hands. A golden chest translated into inventoried jewels reminds us of a struggle turned into adornment. An ancestral legacy that reveals the identity and aspirations of Black women who, despite the cruelty of the prevailing system, found ways to succeed, acquiring wealth, luxury, and power.
Their names are gradually uncovered, engraved in gold and silver. In the silver of thick interwoven rings forming the necklace bequeathed by Marcelina da Silva—a Black woman from the African Coast—to her daughter, Magdalena. In the romantic memories of the Recôncavo, where “Mariquinha Dente de Ouro” once lived—“dressed in linen embroidered with fuss and frill.” Or in the abundant charms of Florinda Anna do Nascimento, the “Queen of Ebony,” affectionately known as Fulô, who smiles beneath her jewels in a photograph that stands as more than proof of her individual achievements—and those of many wealthy Black women in the world of fine jewelry—but also as a testament to the history I now propose to tell as our Carnival theme.
Theme, research, development, and text: Leandro Vieira
G.R.E.S. UNIÃO DE MARICÁ
Press office: Emerson Pereira
Photo Credit: Press Release
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