Salgueiro desconstrói versões de Xica da Silva em apresentação impactante na Noite dos Enredos

Salgueiro desconstrói versões de Xica da Silva em apresentação impactante na Noite dos Enredos
Com Sabrina Ginga como protagonista, escola revisitou as Xicas de Isabel Valença, Zezé Motta e Taís Araújo antes de revelar a mulher por trás das versões construídas pelo imaginário popular
O Salgueiro transformou sua passagem pela Noite dos Enredos, na última sexta-feira (7), na Cidade do Samba, em um espetáculo sobre memória, representação e liberdade. Sétima escola a subir ao palco do evento promovido pela Rio Carnaval, a Academia utilizou seus 12 minutos para apresentar ao público o universo de “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história”, enredo que levará para a Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2027.
Interpretada por Sabrina Ginga, embaixadora do Salgueiro, Xica atravessou diferentes tempos e representações. O espetáculo começou como uma grande gira de pombagira, partindo da proposta do enredo de uma Xica que retorna através de diferentes “cavalas”: Isabel Valença, no histórico desfile salgueirense de 1963; Zezé Motta, no cinema; e Taís Araújo, na televisão. “Eu renasci cada vez que uma delas se incorporou de mim, me fiz pomba-gira”, anunciava Xica no texto em off que conduziu a apresentação.
O ponto alto veio na ruptura com essas imagens. Diante do público, Sabrina retirou o figurino e lançou ao chão a peruca branca que caracterizava Xica. O gesto marcou o abandono dos estereótipos e versões construídas ao longo do tempo para revelar Francisca da Silva, mulher negra, alforriada, mãe de 14 filhos, administradora de seus bens e dona de uma trajetória muito mais complexa do que aquela perpetuada por parte do imaginário popular.
Após se despir dessas construções, Xica recebeu uma nova indumentária e subiu as escadas como uma figura de força e poder. “No terreiro desta noite, o roteiro é meu”, dizia a personagem.
Para Sabrina, protagonizar a cena teve um significado especial. “Xica da Silva foi uma das primeiras novelas que assisti na vida, então essa personagem negra sempre esteve no meu imaginário de beleza e poder. Mostrar as Xicas do imaginário popular brasileiro foi maior do que muita coisa que já imaginei viver. “Subir aquelas escadas pelas mulheres negras e, ao final, poder humanizar essa mulher com meu corpo foi de arrepiar”, conta.
Responsável pela concepção do espetáculo pelo terceiro ano consecutivo, o coreógrafo Paulo Pinna explica que a intenção era apresentar o enredo de forma clara, mas sem abrir mão da emoção. “A gente sabe da potência do enredo que temos nas mãos e, este ano, eu queria que essa potência transcendesse o espetáculo. Queria mexer com a emoção, tocar as pessoas e fazer com que toda a representatividade e a força dessa história chegassem ao público de maneira verdadeira”, afirma.
Mais de seis décadas depois de levar Xica da Silva para a Avenida em 1963, o Salgueiro retorna à personagem para propor um novo olhar sobre sua trajetória. Desta vez, Xica não aparece apenas como personagem das histórias contadas sobre ela, mas como dona da própria narrativa.
A apresentação na Noite dos Enredos foi o primeiro mergulho público nessa proposta. Como sintetizou a voz de Xica durante o espetáculo: “O nosso corpo não é território de escravidão, é terreno de revolução”. O Salgueiro será a terceira escola a desfilar na noite da segunda-feira de carnaval, dia 8 de fevereiro.
Fotos: Thaynara Andrade / GRES Acadêmicos do Salgueiro
Assessora de Imprensa: Samantha Millan
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